
Bem, por algum motivo que desconheço, fiquei com vontade de postar aqui depois de muito tempo. Há muito o que dizer, mas minhas melhores palavras, toda minha historia, se resume ao meu conto e, a minha propria pessoa queima com intensidade naquelas palavras.
O vermelho, esta foi a cor que escolhi, após tantos anos apaixonada pela escuridão, eu vejo que tudo sangra e tudo se torna vermelho um dia ou outro. O sol queima, e suas chamas são rubras, do vermelho explosivo ao laranja menos cálido até se desfazer somente em dourado e acabar como um branco intenso e vazio, a luz.
Vou deixar para vocês o primeiro capitulo da "Cavaleira Rubra", pela primeira vez, tenho uma certa vontade de compartilhar essa historia.
Cap. I – Cinza, Preto e Vermelho.
A poeira daquela imensidão era soprada constantemente para lugar nenhum, como se nunca pudesse tomar um rumo, ela sempre permaneceria ali. Era tudo cinza, sim, essa cor que não representa nem o bem e nem o mal, mas algo que permanece entre eles, o equilíbrio e o vazio.
As rochas, quentes ou frias, se espalhavam entre toda a paisagem, montanhas e vales ao longe, todos mortos, não havia qualquer sinal de vida, não havia animais.
O sol, naqueles tempos, se escondera para sempre num lugar esquecido por todos e, a lua era a mãe de tudo e todos agora, pois só ela iluminava, com seu brilho provindo de alguma esperança que ainda restava no coração daqueles que ali caíram e, para sempre permaneceram a procura de uma saída e desistindo da mesma.
Pois então, que lugar era esse que aqueles se esquecem se tornam seus habitantes? Seu nome foi esquecido também e talvez, ninguém mais o lembre, alguns loucos, outros perdidos por entre o cascalho, arrasados e com rachaduras nos lábios devido a falta de liquido.
Eis então, que nos recordemos que até mesmo as crianças perdem o brilho nos olhos. O céu era vermelho sim, como o sangue que corre nas veias desses desistentes. O menino chorava, estava sozinho entre sua única morada que era uma espécie pequena de gruta. Seus soluços iam e vinham, sem qualquer intenção de cessar a angustia que ali se formava.
Mas aqui, dizem que a angustia é o silencio, pois quando ela vem apenas um último berro se ouve no horizonte.
O silencio é doce e apetitoso assim como a angustia, para a morte que se esconde neste nosso local.
Os olhos azuis da criança miraram a lua, eram desistentes. Suas vestes imundas causavam nojo e faziam o menino ter vergonha de si mesmo. Ele estava sozinho, estava só e angustiado e por isso aquilo veio.
A sua frente o animal surgiu, e se é que aquilo poderia ser chamado de animal, ele falou, falou como gente, como humano, palavras bem claras.
- Angústia. – Recitou, em sua fala arcaica, voz rouca que não era nem de homem nem de mulher.
O rapaz ergueu os olhos, não temeu, e sim sorriu, como se esperasse por aquilo há muitos anos, há tantos anos que a jovem criança era velha demais para se recordar.
- Esperei por muito. – Falou, com a voz infantil e doce.
- Somente quando ela vem a ti você pode se entregar. – Disse o animal.
- Ela quem? – Questionou o garoto.
A criatura, que possuía corpo humano e cabeça de abutre, riu de forma assustadora, os crocitos saíram entre a risada que ecoou como um silfo por todo aquele local cinzento.
- A angustia, quem mais? – Afirmou.
- Ah, - Compreendeu a criança. – Sim, ela. – Ele baixou a cabeça, parecia cansado de falar. – Você vai me levar agora, certo?
- Sim. – Confirmou o animal.
- Posso lhe pedir uma coisa? – Questionou o rapaz.
- Peça. Seu ultimo desejo. – O abutre pareceu sorrir.
- Faça-me recordar, agora, em meu ultimo momento.
- Com todo prazer. Recordar-te-ei de todos seus pesadelos mais doces que sonhos.
- A dor e a felicidade que me fizeram aqui cair. – Disse a criança.
- Sim, como todos nós, torne-se isso, torne-se. – Os olhos da criatura pareceram brilhar.
- Eu tornar-me-ei um como ti. – O garoto desistente pareceu ter em um único momento, a felicidade de chegar naquele final.
- Uma metade de ti que deixou te dominar. – Falou o Abutre.
- Um demônio. – Completou a criança.
- Eu vou arrancar-lhe a cabeça, e você vai desaparecer desse corpo para um novo. E então vou engolir sua alma como fiz com muitos. – Afirmou o abutre.
- E minhas memórias? – Questionou.
- Elas já estão dentro de ti agora, não? – retrucou a pergunta.
O garoto baixou os olhos, se recordava, se recordava ao olhar para o cascalho no chão. Ele se lembrava agora o que deveria ter lembrado muito antes daquele momento. Sorriu, sorriu sim com uma dor no peito e lágrimas a escorrer de seus olhos.
A criatura a sua frente ergueu a garra para arrancar-lhe a cabeça e o coração.
- Suas entranhas são minhas.
No mesmo instante, como um instinto morto que renasce, o garoto de cabelos tão negros quanto os olhos do animal, demonstrou em seu olhar algo maior do que a própria angústia que já era o maior sentimento que cabia em seu peito. Como em uma explosão estelar, ele reviveu tudo o que havia esquecido, mas era tarde demais, aquele fora seu ultimo desejo e, este tendo sido feito, aquele era o final de sua vida.
O preço de uma alma tão podre era apenas recordar daquilo que lhe fez cair. Para que então possa se levantar com força e ser devorada de forma apetitosa. O demônio sabia que iria acontecer e, todos sabem. Os seres humanos temem esquecer, e sempre querem recordar, mas só o fazem em seus últimos momentos.
A criança tentou levantar-se, mas caiu, já estava ali há tanto tempo que suas pernas haviam atrofiado, se arrastou inutilmente pelo cascalho, mas o animal o seguiu de perto, com um andar lento e gargalhadas agudas como silfos de coruja. Ergueu a perna e demonstrou as garras das patas de predador que continha nelas, com crueldade fincou as unhas possantes numa das pernas do garoto.
Ele gritou, com medo e dor em seu olhar agora. Sua perna sangrava muito, as garras chegavam até os ossos. Era tão intensa a aflição que sequer conseguia se mover, lágrimas gordas e cheias de sal escorriam de seus olhos, assim como saliva que saía descontroladamente de sua boca, sequer conseguia respirar naquela carcaça velha.
- Eu sei que pode doer agora, mas depois vamos curar todas suas feridas. – Disse a criatura.
- Isso em troca de minha alma?
- Isso em troca de sua coragem. Uma alma sem coragem e instinto para viver, de nada serve. Se eu quisesse isso, procuraria me alimentar de pedras, que não tem nada a sentir. Mas agora, olhe para você, clamando pela chance de viver, pois se recordou ao olhar para meus olhos, daquilo que lhe fez cair. Orgulho talvez, não? Ou seria a própria consciência lhe dizendo que não é capaz de nada? Pois então, agora o digo que não é. Não nesse momento, não mais. Você esperou muito? Agora me tem. Tem sua morte e sua nova vida. Sem alegrias, sem desejo, sem ambições, sem dor. Uma vida de uma pessoa que se tornou...
- Um demônio. – Completou o garoto.
- Ou quase isso.
O abutre agarrou o pescoço do menino com as mãos que possuíam garras de uma ave predatória também. Ele aproximou a face ossuda e o bico entre aberto do rosto infantil do garoto, parecia sorrir. Dentro da negritude dos olhos, algo pareceu brilhar.
Mas, como uma chama que nasce do além, aquela surgiu para jamais morrer. O rapaz caiu no chão, impregnado por uma gosma preta e liquida que inundava suas vestes. Não sabia o que havia ocorrido, porém agora o abutre estava no mínimo a cinco metros de distancia dele, e parecia enfurecido. Uma aura com muitas cores frias inundava todo seu ser e, como se aquelas sombras que o rodeava tivessem vida, elas tentavam escapar da presença daquele animal, chorando milhões de lágrimas perdidas em agonia e perdão.
A criança horrorizada tentou agir de alguma forma, mas a dor o imobilizara novamente, no primeiro movimento que fizera, ela veio com intensidade que o fez cair.
- Um ritual tão belo quanto levar uma alma para longe não deve ser feito desta forma. – Uma nova voz surgiu ali, era feminina e bela e ainda assim, ríspida. – E ainda mais, por um ser imundo como você.
O demônio rosnou como um cão, mas era visível o seu medo. Com uma das patas tentava estancar inutilmente o sangramento de seu braço que havia sido cortado e queimado pelas chamas daquela nova figura. Ele deu dois passos para trás, recuado e esperando o novo ataque.
Ela o mirou com aqueles olhos frios e indescritivelmente belos que pareciam arder em chamas. Olhos que não existam naquela imensidão, olhos perdidos num passado e reavivados para uma luta.
A mulher que tinha cabelos tão vermelhos quanto o céu se virou para o garoto agora, não parecia preocupada, mas sim, analisá-lo com mais atenção. Seu porte era mediano, a armadura era esquisita e não se podia dizer que era algo santificado ou maléfico, mas sim, algo entre os dois. A grande cruz na parte superior e os espinhos que apareciam em partes mais detalhadas como as ombreiras bem polidas que constituíam a veste, davam-lhe um ar de não pertencer nem ao céu nem ao inferno. E sim, acinzentada, pois não reluzia qualquer brilho que não fosse o dos cabelos tão flamejantes que o sol, onde quer que estivesse, sentir-se-ia pálido perto deles.
E então ela se voltou para o inimigo e correu em sua direção. Não eram necessárias quaisquer palavras, demônios não as merecem, apenas o silencio, onde cabe a angustia.
A criatura tentou desviar, mas quando notou, seu corpo já se partia ao meio, e chamas tão intensas quanto a boca do próprio diabo consumiam aquilo que haviam tocado.
Não houve gritos, nem nada, nem mesmo o silencio, pois o vento o afastou, assim como afastava a poeira e remexia os cabelos sangrentos daquela mulher.
Havia sangue negro respingado em sua face, sangue tão denso e escuro que era nojento. Mas é o sangue que engana a sede como se fosse água e ela, com o dedo indicador limpou a face e passou o liquido por sua língua.
O garoto, estirado em seu canto, a mirava com curiosidade e esplendor, admirado pelo feitio da moça, ele a chamou, com a voz rouca e fraca do susto que havia passado, gritou qualquer coisa, uma, duas... várias vezes.
Mas aquela mulher, que carregava em sua mão uma espada brilhante que parecia ser feita de fogo, sequer respondeu e deu as costas. Até que ele finalmente gritou-lhe algo:
- Espere! Ao menos diga-me seu nome! – Questionou num berro a plenos pulmões, como um último chamado de esperança.
- Você não precisa saber meu nome. – Respondeu sem se virar para mirá-lo.
- Eu quero saber quem você é!
- Você precisa se recordar primeiro, de quem você é e, então, saberá meu nome.
Ela retomou o passo e sua armadura cinzenta fora se mesclando a paisagem à medida que ela se afastava e deixava mais uma criança com a esperança de renascer em suas mãos.
A cavaleira do amanhecer, que modifica tudo por onde passa, seja com lágrimas ou sorrisos, apenas pense: Quem você mesmo é, se quer saber Aquele nome.