
Inglaterra – Ano de 1373
Eram duas da manhã, naquele momento um frio impetuoso tomava conta do clima antes ameno. A mata molhada indicava um ralo chuvisco que somente deixara para trás pequenas possas de lama pela maior parte da paisagem. Os animais se recolhiam a suas tocas e faria silencio não fosse um tal evento que ocorria nas redondezas.
Na estrada de terra que atravessava toda a campina, o barulho do casco dos garranos, do açoite que tanto os castigava e das rodas produzidas em madeira e ferro da carruagem que os animais puxavam cortava o canto desesperado dos pobres que morriam de fome nas redondezas.
Os três carros puxados por animais menores que troteavam pela estrada eram acompanhado pelo galope de pelo menos mais uma dúzia de animais montados. Os homens que os corcéis traziam na garupa aparentemente eram guerreiros, pois no corpo placas de ferro e peças de lã e couro pesado protegeriam a escolta de qualquer perigo eventual que encontrassem pelo caminho.
- É um prazer que eu possa desfrutar de sua companhia milady. – Pronunciou a voz masculina.
- Também é de bom grado poder compartilhar de sua presença. – Anunciou a voz feminina, tentando encerrar o dialogo inoportuno de ambos. – Que seja ela um bom motivo para minha tão grande viagem.
Ela se sentava distante do homem. Sua expressão desgostosa não parecia perder os traços de beleza que tal moça possuía. Sua pele era branca bem como de costume dos nobres da época. Na face alguns traços de delicadeza se mesclavam aos lábios e olhos sedutores da alemã. De cabelos dum loiro dourado que era como o trigo das colheitas dos camponeses, reluzente a luminosidade dos lampiões externos do coche que os tocava. O corpo era coberto por um vestido preto, repleto de adornos que realçavam a abastança que ela já possuía.
Já o homem que sentava a sua frente, mas no outro canto da caleça aparentava ser um tanto mais velho que a mulher. O rosto tinha o formato arredondado e uma barba esbranquiçada e espessa o contornava de forma rude. Ombros largos, mas apesar da face gorda seu corpo contrastava com o mesmo, sendo ele nem gordo nem magro apenas robusto. Seus trajes não eram menos requintados que os dela. O tecido que formava a casaca tinha as mangas adornadas com fios dourados, as ombreiras o mesmo. Uma espécie de capa feita em pele de lobo que lhe proporcionava um ar de nobre tirano.
Irritada somente com sua presença a loira abriu uma pequena fresta do seu lado do carro e enfiou meio rosto para fora, sentindo o vento gélido da noite penetrar em sua carne. Parou e observou a paisagem atrás das cortinas. Aquilo foi o suficiente para desviar sua atenção.
Não muito longe da estrada, as tochas de uma fortaleza feudal se revelavam em meio a penumbra, junto as mesmas o enegrecido edifício rochoso do feudo, era observado por seus olhos que aparentavam ser de um castanho avermelhado, agora repletos de curiosidade. Imaginava naquele momento e os padres do monastério provavelmente estavam preocupados demais com a fé em seus sonhos para dar importância a balburdia convencional dos camponeses que normalmente fornicavam pecaminosamente na noite.
Porém a uns dez metros da diligencia sua execução ocorria.
E agora nada do que se passava distante dele parecia importar. Não podia ver nem carroças nem cavalos apenas um rumo incerto dentre a escuridão. O arfar cálido do ser ousava invadir a friagem do inverno que se aproximava. O bafo tépido saltava a frente da boca, que aberta revelava alguns dentes pontiagudos. As pernas se movimentavam em uma corrida que significaria sua vida e apesar do terreno difícil procurava não tropeçar para que seus predadores o apanhassem.
O homem virou a cabeça no sentido inverso ao que corria para saber o quão próximo estavam seus agressores. Podia ouvir os gritos das bestas atrás de si, cada vez mais perto, fazendo com que o medo tomasse conta de todo seu ser. A pelo menos três metros dele os ferozes seres se aproximavam, disparados em uma cólera incontrolável, os cabelos engrenhados e a pele coberta pela lama a qual pertenciam. No olhar apenas o instinto de matar aqueles que lhe contrariavam.
Rebeldes, os humanos estavam certos das mortes brutais de seu povo cometidas pelo garoto de forma tão ferinas. E iriam mata-lo, da mesma forma como os seus morreram.
O garoto saltou desde a campina até a estrada, utilizando a ultima explosão de energia que acreditava ter em seu corpo. O pulo que alcançou a estrada de terra batida, que agora lhe proporcionava um pouco mais de velocidade no novo chão que não era tão acidentado.
Um ou dois metros mais distante, calculou que havia ganhado com aquela ação. Ele quase conseguia sorrir, sabendo que tinha a chance de escapar. No peito o medo não era mais o único sentimento, pois esperança brotava lá dentro.
Mais enfurecidos com sua fuga, os camponeses começaram a atirar tudo o que tinham em mãos ou mesmo nos arredores. Uma leva de objetos atingiu o rapaz, que curvado tentou defender-se.
Então a dor lhe invadiu. O impacto de um pedaço de ferro atravessando seu tornozelo e o estalo de seu pé se dobrando completamente chegou aos seus ouvidos de forma horrenda. O choque violento lhe afligiu quando sentiu o peito colidir violentamente contra o chão. Aturdido, mal conseguia entender o que ocorrera. Mas sentia que sua fuga fracassara quando a dor de uma leva de golpes voltou a atingir desde sua pele até seus ossos.
Então o som das diligencias se pareceu querer sobrepor o dos gritos enfurecidos da multidão e os silvos de agonia do rapaz. Os cascos dos cavalos chamaram a atenção dos rebeldes que se viraram para ver o que se aproximava, uma vez que temiam serem também punidos .
Os soldados que vigiavam as caleças tomaram a frente das mesmas, atentos ao evento.
- Meu senhor. - Chamou o soldado alemão que aparentava ser o mais novo dentre eles.
Ele apontou na direção do grupo que ainda espancava o garoto furiosamente. Imediatamente um guerreiro montado em um cavalo negro e o mais alto dentre os outros passou por seus companheiros, curioso por decifrar o que seus olhos miravam.
Ele sentia a presença do garoto em meio aos humanos. Sua energia fraca se esvaia cada vez mais rápido. Não acreditava que veria algo do tipo algum dia durante toda sua existência. A face franziu de raiva atrás do elmo que cobria a maior parte do seu rosto. Mas os olhos que estavam expostos revelaram sua fúria.
Invadido pelo ódio ele galopou até os camponeses em grande velocidade. O som do metal viajando em meio ao ar causou horror nos rebeldes que se afastaram quando a primeira cabeça rolou pelo chão. A face do homem morto só representava a mais pura aflição da morte, mas isso não chegava nem aos pés da cólera que tomava conta daquele guerreiro.
- Saiam! Seus humanos imundos! – Mandou enquanto virava o peito do cavalo pronto para atropelar quem ousasse contra ele.
Vendo seu comandante os demais soldados acompanharam em investida, forçando os rebeldes para longe.
O cavalgante do shire negro era Alden, apesar de não aparentar, era o soldado mais velho entre todos os demais e também o comandante daquele pequeno exercito. Seu elmo possuía uma estrutura diferenciada com pontas de ferro que imitavam espinhos no topo e adornos de figuras que pareciam lobos. No peitoral os mesmos desenhos se repetiam, as manoplas de ferro tinham pontas como garras e no centro de seu cinturão a cabeça animalesca lupina intimidaria seus inimigos.
A montante que carregava também não era comum, seu pomo possuía uma grande joia vermelha presa na boca de um cão e o cabo detalhado concluía sua estrutura. A lâmina era constituída em um metal mais esbranquiçado que o comum e nem mesmo seus companheiros ousavam aproximar-se daquele objeto.
Ele desceu do animal que manteve-se quieto enquanto caminhava até o rapaz estendido no chã. O tilintar dos metais que cobriam seu corpo chegou aos ouvidos do jovem, que em um movimento cheio de dor virou a face para mirar o guerreiro.
O capitão apanhou-o pelo ombro e o ergueu seu corpo desde o chão até a altura da face. Os olhos de tom também rubros do velho procuraram os do menino com dificuldade, pois estes se fechavam devido aos inchaços dos ferimentos.
- Olhe para mim rapaz! – Mandou Alden com o melhor inglês que conseguia pronunciar, segurando seu rosto sem qualquer delicadeza.
No mesmo instante o menino revelou seus olhos repletos de medo. Carmesim como o sangue que escorria de todo seu corpo.
O comandante pareceu feliz em ter aquela confirmação. Alden puxou o garoto até a carruagem. A loira que tentava entender o que interrompeu a viagem se espantou quando viu o menino. Os hematomas e cortes não foi exatamente o que chocou ela e sim o quão magro estava o rapaz.
- Leve-o para dentro do carro de mantimentos, Alden. – Mandou ela. – Cuide desses ferimentos e dê-lhe alimento.
Alden prestou reverencia a mulher e então se retirou, levando o corpo do rapaz para dentro da ultima carroça, que tinha além de dois garranos um par de muares puxando-a.
Então o som do casco dos cavalos voltou ao seu habitual. As três carruagens seguiram caminho, bem como os soldados que voltaram a escolta-la.
Já dentro da caleça muitos criados cuidavam limpavam os ferimentos do recém-chegado, que nada dizia enquanto o faziam. O homem sentia o balanço do carro chocando-se contra cada milímetro de seu corpo o que fazia a dor dos criado tocando suas feridas tão agonizantes que ele apenas continha tal aflição.
Tentava inutilmente ver a face dos homens e mulheres ao seu lado, mas não obtinha sucesso devido ao inchaço das pancadas que levara acima dos olhos que tornavam-se cada vez maiores.
Aos poucos a visão tornou-se turva e os sons distantes, até tudo sumir.





